Caso aconteceu em Caxias do Sul, na Serra. Por não constar o nome do pai no registro da criança, doação de órgãos só pode ser feita com decisão judicial. Número de transplantes e de doadores caiu na comparação entre os primeiros trimestres de 2020 e 2021 no estado.

Uma família de Caxias do Sul, na Serra do Rio Grande do Sul, passou por um momento difícil no final de março. A pequena Ana Clara, de três anos, morreu após se engasgar com um alimento. A situação triste e repentina se transformou em um ato de solidariedade, quando os parentes decidiram doar os órgãos da menina.

Por não constar o nome do pai do registro da garota, a legislação só permite o transplante com decisão judicial. No mesmo dia em que foi confirmado o óbito, a mãe de Ana Clara, o médico e um defensor público viabilizaram a doação de órgãos da criança no Judiciário.

"Quando a gente ama uma pessoa, não importa. Amor não é egoísmo, e eu não queria ser egoísta naquele momento com ela", disse Linda Bárbara, a mãe da menina.


'Generosidade e empatia'
Ana Clara faleceu no dia 26 de março. Cinco dias antes, a caçula de três irmãos se engasgou ao se alimentar, contou a mãe, Linda Bárbara Ferreira. A menina teve morte cerebral, provocada pela falta de oxigênio.

"Foi uma rapidez, de uma criança ativa, pegar, comer e, com um susto, se engasgar. É uma coisa que a gente jamais pensou que iria acontecer na nossa vida", relatou.

Naquele dia, o médico de plantão na UTI do Hospital Geral de Caxias do Sul era o doutor Rafael Lessa Costa. O intensivista também é o coordenador da equipe responsável pela doação de órgãos para transplantes na unidade.

"A gente precisou ir atrás da família, na casa deles, sentar com a família e explicar que talvez fosse um pouco mais demorado do que eles esperavam. Porque uma grande parte dos familiares nega a doação em virtude do longo tempo de espera para a captação dos órgãos. A família quer terminar com o sofrimento rápido, encerrar aquele luto", explicou.

Tendo a autorização da família, mas com o problema envolvendo o registro paterno, o médico contatou a Defensoria Pública, em busca de auxílio. O caso foi atendido pelo defensor Raphael Coelho, que enviou a ação para o Judiciário.

"A dona Linda Bárbara, num momento de extrema lucidez, generosidade e empatia, me disse que era esse o desejo dela", contou o defensor.


Do primeiro contato entre médico e defensoria até a decisão do juiz Sérgio Fusquine, se passaram apenas três horas. Com o alvará autorizando a doação, o Hospital foi novamente contatado, para realizar o procedimento.

"Houve todo um movimento, que se iniciou e foi concluído numa mesma sexta-feira, com a integração e a participação de servidores públicos dos mais diversos níveis. Todos olhando para o mesmo lugar, o mesmo caminho, para que os órgãos fossam transplantados", comentou Raphael Coelho.

Doação de órgãos no RS
Segundo a Central de Transplantes da Secretaria Estadual da Saúde do RS, 40 pacientes com morte encefálica confirmada já foram registrados como doadores nos três primeiros meses de 2021. O número representa 24% do total de 170 pessoas falecidas por essa razão no período.

Na comparação com o primeiro trimestre de 2020, quando 58 doadores foram registrados, houve uma queda de 31% de pacientes dispostos a doar órgãos (veja gráfico abaixo).

Número de doadores de órgãos diminui desde o começo da pandemia
Neste ano, em 34 casos, as famílias não autorizaram a doação de órgãos. O restante envolve motivos clínicos que impediram a doação.

Ao todo, 84 transplantes foram realizados entre janeiro e março deste ano. No ano passado, foram 193 procedimentos no período, quase 120% a mais (veja gráfico abaixo).

A lista de espera por órgãos conta com 2.091 receptores ativos atualmente no estado.

'Anjo'
O fígado de Ana Clara seria doado para um bebê, com menos de um ano de idade. Entretanto, segundo a Central de Transplantes do RS, não houve compatibilidade. O órgão, vinculado à Secretaria Estadual da Saúde, confirmou que as córneas da menina já foram transplantadas para outro paciente.

Sem conhecer o médico pessoalmente, além dos contatos por e-mail naquele dia, o defensor público Raphael Coelho destaca o papel do intensivista e da mãe para garantir a doação dos órgãos de Ana Clara.

"Para mim, nessa história toda, há dois protagonistas. Um é o doutor Rafael, o médico. O outro é a dona Linda Bárbara", comentou.


Para o médico, o momento do transplante é o que demonstra a maior caridade da família de alguém que perdeu a vida.

"Naquele momento de maior dor, de toda a família, ela ainda ter espaço no coração, tão machucado e tão dilacerado pela dor, para pensar em um desconhecido, pensar que pode salvar a vida de um desconhecido, é um momento muito marcante", disse Rafael Lessa Costa.

Linda Bárbara lembra com carinho de Ana Clara, afirmando que a filha é um anjo que agora ajuda outras crianças.

"E acho que era a missão dela também. Foi um anjo que veio do céu para ajudar. Ela só voltou para a casinha dela agora", disse.

Fonte: G1 

17 de Abril de 2021

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