Durante o último ADPERGS na Estrada, em Santa Maria, a presidente da Associação, Juliana Lavigne, esteve na casa de um dos Defensores mais conhecidos da região, Alvaro Edison Nozari, que contou um pouco sobre sua trajetória na Defensoria e sobre como leva a vida de aposentado.

Juliana: o que o Senhor fazia antes de entrar na Defensoria?

Alvaro: eu sempre advoguei, aí passei a prestar assistência judiciária gratuita e passei a Defensor com a criação da Defensoria Pública mesmo. Eu sou um apaixonado pela Defensoria, acho que o grande elo entre o Poder Judiciário e os mais pobres são os Defensores. Aprofundando-me mais no aspecto constitucional, não lembro bem o artigo, mas diz que o advogado é imprescindível na administração da justiça e que o Defensor Público é essencial. Eu já acho que o Defensor Público não é só essencial, é imprescindível, em virtude de atender realmente as pessoas carentes do nosso país.

 

Juliana: hoje em dia, depois da aposentadoria, o Senhor continua advogando?

Alvaro: continuo, eu tenho um escritório e dois colegas que trabalham lá, mas eu vou colocar minha filha pra assumir, ela está começando a advogar e, inclusive, foi estagiária da Defensoria.

 

Juliana: o senhor referiu sobre a escola?

Alvaro: sim eu sou um dos fundadores da FESDEP. Quando eu ainda estava na ativa, nós chegamos a fazer cursos da Fundação aqui em Santa Maria. Eu fazia o que amava e amava o que fazia.

 

Juliana: que bom doutor Alvaro, porque para ser Defensor Público não basta conhecer direito, tem que ter o perfil humano, gostar de atender.

Alvaro: exato, eu, por exemplo, quando tava na Defensoria, trabalhava 12h, não tinha tempo de estudar Direito, eu lia o processo, daí que eu ia ver, aprendia resolvendo o problema.

 

Juliana: em que áreas que o Senhor atuou dentro da Defensoria?

Alvaro: trabalhei no crime, e na infância e juventude. Depois eu fui para a 3ª Vara Criminal e Vara de Execuções, daí eu fui para a 1ª, que é a do Júri. Eu nunca deixei de atender uma pessoa, nem que seja nos corredores. Sempre tratei as pessoas em primeiro lugar, mas tinha momentos em que eu estava em audiência, ou no júri que não poderia. Eu até, para minha vaidade, tive vários Defensores novos que me disseram que acabaram fazendo o concurso para a Defensoria inspirados no meu trabalho.

 

Juliana: me conta um caso emblemático que o Senhor se recorde aqui de Santa Maria.

Alvaro: eu lembro de vários. Teve um ele foi acusado de pegar um senhor, passar a corda no pescoço dele e arrastar trezentos metros, pendurar ele num galho e enforcar. Daí ele confessou pro delegado, e na confissão dele tinha um advogado, e o advogado fez uma pergunta para ele, perguntou se ele tinha sido coagido, maltratado ou torturado para fazer aquela confissão. Ele disse “não, tudo bem”, mas o que aconteceu foi que a vítima tinha ouvido dizer que ele iria castrá-lo, e a vítima disse “vou me matar”. E daí o seguinte, um dia antes tinha chovido, as roupas da vítima que foi arrastada não tinham nada, marca nenhuma, e a vítima foi num psiquiatra daqui e estava em depressão. Daí o legista disse que era ali que o cara subiu pra pendurar o outro, numa corda de, no máximo, um metro. Porém no final, consegui demonstrar que a vítima se suicidou e absolvi.

Juliana: é, quando essas situações acontecem é bem interessante.

31 de Janeiro de 2018